A Cidade Criativa pode ser planeada?
Os processos criativos nas zonas urbanas e rurais são uma faca de dois gumes. Desencadeiam desenvolvimentos, mas, ao mesmo tempo, são rapidamente substituídos pelo mainstream. Na edição de outubro, analisamos o potencial dos actuais projectos criativos e discutimos até que ponto o planeamento deve proteger as subculturas da região. Porque é que dedicámos este número à cidade criativa …
Todos nós já ouvimos falar – a teoria económica de Richard Florida sobre a classe criativa. Durante anos, Florida defendeu que as mentes criativas de uma sociedade e as suas inovações eram cruciais para o crescimento económico de uma região. Ainda hoje é citado em muitos sítios. Apesar de a teoria ter ficado desactualizada. Até Florida tem vindo a recuar há alguns anos e admite que a cidade criativa traz mais deslocação do que riqueza.
Mas será que Florida estava assim tão errado? Afinal, o modelo da cidade criativa também partilha a sua mensagem básica. Criado pelo urbanista britânico Charles Landry, vê a criatividade como a chave para o progresso e a prosperidade. A grande diferença? Está em saber quem é o potencial criativo e como é tratado.
Enquanto Florida parte do princípio de que 25 a 30% dos habitantes de uma cidade têm potencial criativo, incluindo sobretudo artistas, músicos, escritores – por outras palavras, artistas – o objetivo programático de Landry visa 100% da sociedade urbana. „Uma cidade criativa é um lugar que estabeleceu uma cultura quotidiana em que todos podem ser potencialmente criativos“, diz Landry. Acima de tudo, a Cidade Criativa deve permitir a criatividade e reforçar a qualidade de vida na cidade. Nesta edição, analisamos onde se encontram as principais alavancas.
Uma questão em particular preocupou-nos, a nós, equipa editorial, no período que antecedeu a edição: a Cidade Criativa pode ser planeada? Pelo menos de acordo com Julian Petrin, urbanista e especialista em processos co-criativos da urbanista em Hamburgo, na nossa entrevista de abertura. Mas pode ser projetado. O bairro criativo de Munique é uma prova impressionante de como isso pode ser. Desde o início, os planeadores da Teleinternetcafe e da Treibhaus Landschaftsarchitektur concentraram-se na conceção de processos criativos em diálogo com os criativos locais.
A desagradável palavra G
Por outro lado, os projectos que devem ser vistos de forma mais crítica são „The Shelf“ e „Darwin“, em Berlim e Bordéus. Aqui, os investidores orientados para o lucro não promovem desinteressadamente projectos criativos. A desagradável palavra G ressoa.
Mas enfim. Será que ainda hoje é possível falar da cidade criativa sem falar de „gentrificação“ ao mesmo tempo? Dificilmente, porque esse é o lado negro da cidade criativa. Os cínicos afirmam mesmo que a gentrificação se tornou um instrumento do desenvolvimento urbano moderno. Em muitos sítios, as pessoas são impotentes face a ela.
Tem de ser assim? Não. Porque a impotência não pode ser a resposta, apenas a criatividade. Pelo menos se seguirmos as ideias de Charles Landry. Enquanto Landry costumava sublinhar a importância da vida cultural para a cidade criativa, está agora convencido de que a administração e as instituições centrais também devem atuar de forma criativa para desenvolver o potencial de uma cidade. E sim, isto também se aplica a lidar com a gentrificação.
A G+L 10/2019 centra-se na cidade criativa. Pode adquirir a revista aqui.

