20.02.2026

Truque

Lilith – A primeira mulher de Adão

A obra "Lilith" (1892), de John Collier, mostra a primeira mulher de Adão como uma figura sedutora e auto-determinada - entre demoníaca e símbolo do poder feminino. Foto: Domínio público, via: Wikimedia Commons

A obra "Lilith" (1892), de John Collier, mostra a primeira mulher de Adão como uma figura sedutora e auto-determinada - entre demoníaca e símbolo do poder feminino.
Foto: Domínio público, via: Wikimedia Commons

Quem foi Lilith – demónio, deusa ou simplesmente a primeira mulher a dizer „não“? Entre mitos antigos e feminismos modernos, ela vagueia através dos milénios: de espírito noturno alado a ícone da autodeterminação feminina. Uma busca de vestígios da figura mais misteriosa da história da criação.

Quando a história bíblica da criação é mencionada, a maioria das pessoas pensa em Adão e Eva. Mas à margem da tradição religiosa, meio esquecida, meio temida, está outra figura: Lilith. Ela é vista como a primeira mulher de Adão, como um demónio, como um símbolo de tentação – e hoje como um ícone da auto-determinação feminina. Dificilmente outra figura terá sofrido tantas transformações como ela. Lilith é mito, espelho e superfície de projeção, tudo num só.


Do deserto da Mesopotâmia ao Jardim do Éden

A sua história começa muito antes da Bíblia, nos mitos da Mesopotâmia. Nos textos sumérios e babilónicos, aparecem seres chamados Lilītu ou Lilu – espíritos noturnos alados que trazem doenças, ameaçam as crianças e seduzem os homens em sonhos. Estes demónios personificavam o lado indomável da natureza, o caos da noite e o desejo. Na Bíblia hebraica, Lilith só é mencionada uma vez – em Isaías 34:14, onde aparece numa paisagem desértica, rodeada de corujas e chacais, como símbolo de solidão e desolação. A escritura permanece vaga, mas autores judeus posteriores interpretaram esta menção como um vestígio de um antigo mito demoníaco. Ao longo dos séculos, esta alusão deu origem a uma narrativa com várias camadas.


A primeira mulher de Adão

Especialmente no alfabeto medieval de Ben Sira (séculos VIII a X d.C.), Lilith assume um novo papel. Aqui, ela é descrita como a primeira companheira de Adão – criada da mesma terra que ele, igual em natureza e dignidade. Mas quando Adão exige que ela se submeta a ele, ela recusa: „Somos iguais, pois somos feitos da mesma matéria.“ Esta recusa leva a uma rutura. Lilith abandona o Jardim do Éden, pronuncia o nome indizível de Deus e foge para o Mar Vermelho. Aí, segundo a lenda, ela une-se aos demónios e faz surgir inúmeros seres fantasmagóricos. A partir daí, a tradição rabínica interpretou-a como uma tentadora nocturna e uma ameaça para os recém-nascidos – um demónio feminino do qual as pessoas tinham de se proteger com amuletos. Mas há algo mais que transparece nas entrelinhas desta história: Lilith é a primeira personagem a recusar-se a curvar-se perante a autoridade. A sua fuga do Éden é simultaneamente um ato de desobediência e de autodeterminação – um „não“ que abala a ordem.

A gravura mostra Adão, Eva e Lilith e aborda artisticamente questões de humanidade, liberdade e o papel da mulher nos contos mitológicos. Foto: Domínio público, via: Wikimedia Commons
A gravura mostra Adão, Eva e Lilith e aborda artisticamente questões de humanidade, liberdade e o papel da mulher nos contos mitológicos. Foto: Domínio público, via: Wikimedia Commons

A rainha negra da Cabala

No misticismo judaico, a Cabala, Lilith é mais desenvolvida. No Sohar, a obra central do século XIII, ela aparece como consorte do demónio Samael, como a rainha do „outro lado“ – o mundo escuro que tanto reflecte como distorce a luz divina. Ela encarna o princípio da sedução, do caos e da separação de Deus. Mas Lilith é mais do que apenas o mal nesta interpretação. Ela é a contrapartida necessária à ordem divina, a personificação da sombra feminina que ressoa em todas as criações. A sua existência é um lembrete de que a luz e as trevas estão indissociavelmente ligadas – uma visão que mais tarde ecoa na psicanálise.


Lilith na arte

Poucas figuras míticas inspiraram tanto os artistas como Lilith. Na Idade Média, aparece nas demonologias e nas ilustrações bíblicas com um corpo de serpente, asas de morcego ou como uma mulher sedutora de cabelos compridos – símbolo do pecado. Em algumas representações do paraíso, é mesmo identificada com a serpente que seduz Eva: não é a serva do mal, mas a sua autora. Durante a Renascença, Lilith permaneceu sobretudo uma figura marginalizada, mas no século XIX regressou de forma espetacular. Os pré-rafaelitas – artistas como Dante Gabriel Rossetti – fizeram dela a sua musa. O quadro de Rossetti, Lady Lilith (1868), mostra-a como uma mulher bonita e introvertida a pentear-se: um símbolo do amor-próprio narcisista, mas também da autonomia feminina. Do mesmo modo, John Collier pintou uma Lilith nua em 1892, entrelaçada com uma serpente – a personificação perfeita do poder erótico.
No século XX, as mulheres artistas redescobriram Lilith. Em 1994, a escultora americana Kiki Smith criou uma escultura que mostra Lilith pendurada de cabeça para baixo numa parede – vulnerável e ameaçadora ao mesmo tempo. A sua Lilith olha diretamente para o espetador, uma mistura de humano, animal e mito. Ela também vive na literatura, na música e na cultura pop: como personagem de séries de fantasia, como símbolo em revistas feministas, como homónima da Lilith Fair, um festival de música exclusivamente para artistas femininas. Estas representações artísticas mostram como o seu mito é mutável. Cada época cria a sua própria Lilith: demónio, tentadora, deusa, símbolo de emancipação.

Em Lady Lilith, Rossetti retrata Lilith como uma figura misteriosa e sedutora que personifica tanto a beleza como o poder. Foto: Museu de Arte de Delaware, domínio público, via: Wikimedia Commons
Em Lady Lilith, Rossetti retrata Lilith como uma figura misteriosa e sedutora que personifica tanto a beleza como o poder. Foto: Museu de Arte de Delaware, domínio público, via: Wikimedia Commons

De demónio a ícone

Nos tempos modernos, Lilith perdeu em grande parte as suas asas negras. Teólogas feministas como Judith Plaskow e Ewa Wipszycka lêem-na como um símbolo da voz feminina reprimida nos textos religiosos. Na astrologia, a chamada „Lua Negra Lilith“ simboliza a independência e o inconsciente – uma indicação de quão profundamente o seu mito se infiltrou na consciência cultural. Atualmente, Lilith é um paradoxo: uma figura que é ao mesmo tempo condenada religiosamente e celebrada culturalmente. Ela personifica o desejo de liberdade, mas também o medo de perder o controlo. Talvez seja precisamente aqui que reside o seu fascínio duradouro – ela representa aquilo que não pode ser domesticado, o poder que desafia a ordem.
Lilith é mais do que uma figura mitológica. Ela é uma tela de projeção para questões que ainda hoje são relevantes: Quem pode exercer o poder? O que significa igualdade? E quanto caos pode a ordem tolerar? Quer seja demónio, deusa ou símbolo da autodeterminação feminina – Lilith continua a ser a voz que diz „não“ no paraíso. E talvez este „não“ seja o primeiro passo para a liberdade.

Leia mais: Adão e Eva na arte.

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