O burro tem um lugar firme na história da arte – como animal de carga, símbolo de modéstia e observador silencioso dos dramas humanos. Da iconografia bíblica à pintura moderna, aparece repetidamente – por vezes como um fiel companheiro, outras vezes como um espelho das idiossincrasias humanas. Embora raramente esteja no centro das atenções, a sua aparência revela muitas vezes mais sobre a sociedade do que os heróis que o montam.
O burro na arte: das representações bíblicas e do simbolismo histórico à pintura moderna e às interpretações contemporâneas.
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A maior parte de nós reconhece o burro e o boi no estábulo como estando relacionados com o nascimento de Cristo. De facto, estes animais não são mencionados nos relatos do nascimento no Novo Testamento; a sua presença só surgiu através da tradição histórico-artística, que interpretou o animal simples e paciente como um símbolo de modéstia e tranquilidade. Durante muito tempo, o burro foi a montada mais importante da região mediterrânica. Era considerado nobre, hábil, inteligente e paciente. Com a introdução do cavalo no século VI a.C., o seu papel mudou: o burro foi cada vez mais degradado a um animal de carga, e o seu significado simbólico foi desvalorizado em consequência.
Do estábulo ao quadro: as primeiras representações do burro
O burro já era representado artisticamente nas primeiras civilizações. Nas pinturas dos túmulos egípcios, pode ser visto como um cavalo de trabalho incansável, um símbolo de constância e de provisão. Também esteve presente na Antiguidade – em vasos gregos, relevos romanos e moedas, muitas vezes associado ao trabalho camponês ou a cenas mitológicas. A sua associação com o deus Dionísio e a deusa Deméter é particularmente interessante, pois é um dos seus seguidores. Aparece também no mito de Silen, para quem serve de montada. Uma história bem conhecida é a do rei Midas, que foi transmitida por Ovídio. O rei Midas está presente na disputa entre o deus Apolo e o deus pastor Pã. Tmolos, uma divindade da montanha, actua como árbitro e escolhe Apolo como vencedor. Midas protesta: Gostou mais do toque de Pan com a panpipe do que da apresentação de Apolo com a kithara. Apolo castiga então Midas com orelhas de burro.
Com o advento do cristianismo, o animal adquiriu um novo e mais profundo significado. Na arte bíblica, o burro tornou-se um símbolo de humildade e de paz. Particularmente impressionante é a representação de Giotto da Entrada de Jesus em Jerusalém (cerca de 1305) na Capela Scrovegni. Aqui, o animal transporta a figura divina sem esplendor, mas com dignidade. O burro torna-se assim a encarnação do ideal cristão: forte no silêncio, digno na simplicidade. Mas desempenha também um papel importante como montada na fuga do Egito. Maria, que está grávida de Jesus, monta-o.
Da Idade Média ao Barroco
Na Idade Média, o burro aparece frequentemente nas cenas do nascimento de Cristo – ao lado da Virgem Maria na manjedoura, ao lado do boi. Esta constelação, conhecida de inúmeros retábulos e frescos, simboliza o simples, o humano e o terreno. Artistas como Fra Angelico, Ambrogio Lorenzetti e Hieronymus Bosch utilizaram o burro como poste de repouso, como símbolo da paciência no meio do divino.
Ao mesmo tempo, o burro serviu como símbolo de loucura na iluminura e na sátira dos livros medievais. As miniaturas mostram monges com orelhas de burro, tolos em trajes sacerdotais – uma crítica subtil à arrogância e prepotência. A pintura de Rembrandt „O Profeta Balaão e o Asno“ é dedicada a uma história do Antigo Testamento. O profeta é mostrado montado na sua jumenta e acaba de brandir um pau para a atingir. No entanto, a jumenta viu algo que Balaão não notou: um anjo do Senhor está a bloquear o caminho. A jumenta pára, sai do caminho e finalmente diz a Balaão: „Que te fiz eu para me bateres pela terceira vez? Deus abre-lhe então os olhos e permite que o profeta veja o anjo com a espada. Balaão apercebe-se então de que pecou. Na sua pintura, Rembrandt sublinha com mestria a tensão dramática entre a advertência divina, a cólera humana e a sabedoria animal, fazendo do burro ou da jumenta um símbolo ativo de discernimento e de providência divina.
Um animal de nuances: o burro como espelho da alma do artista
No século XX, o burro apareceu em papéis completamente novos. Pablo Picasso pintou várias representações do animal no seu período cor-de-rosa, por exemplo em „Femme à l’âne“, combinando ternura e simplicidade. Marc Chagall fez com que o burro aparecesse em cenas flutuantes sobre aldeias, como em „O burro e o violino“, como um mensageiro poético entre o céu e a terra. O burro tornou-se assim um símbolo de ambivalência: pureza, humildade e, ao mesmo tempo, uma expressão do desejo humano.
Na arte moderna, o burro é muitas vezes menos um motivo do que uma metáfora. Franz Marc descreveu o mundo a partir da perspetiva do animal e observou que o olhar de um burro parece „triste e conhecedor ao mesmo tempo“ – uma interpretação que enfatiza o seu poder simbólico. Uma das suas obras mais conhecidas é o „Friso do Burro“, que foi também um passo importante no desenvolvimento artístico do pintor. Inspirado por um relevo egípcio, criou uma disposição de burros em forma de friso.
O burro continua assim a ser um camaleão de significados. Quer seja religioso, poético ou político, a sua presença leva o espetador a refletir sobre valores como a paciência, a humildade e a dignidade. O burro pode ser menos visível na arte do que os cavalos ou os leões, mas o seu poder simbólico é ininterrupto. Encarna o não espetacular, o persistente, o gentil. Num mundo cheio de barulho, o burro lembra-nos o silêncio, a paciência e a dignidade da simplicidade. E assim permanece, como há séculos, uma testemunha silenciosa da história cultural humana – um animal que, na sua modéstia, nos diz muitas vezes mais do que os heróis que o acompanham.

