Zaha Hadid foi a mulher poderosa da arquitetura. Foi a primeira arquiteta estrela, a primeira mulher a ganhar o Prémio Pritzker, a primeira mulher a ser distinguida com a Medalha de Ouro Riba, a primeira mulher a realizar os edifícios mais sensacionais do mundo – a lista poderia ser alargada para incluir uma série de superlativos. Agora morreu, vítima de um ataque cardíaco, com apenas 65 anos. A sua voz, que sempre foi controversa, vai fazer falta. Hadid sempre lutou e, por muito impressionante e glamoroso que o seu trabalho fosse no exterior, também se caracterizou por esforços sobre-humanos e humilhações brutais.
No seu país de adoção, a Grã-Bretanha, Hadid foi repetidamente criticada. O seu sucesso no Reino Unido chegou tarde. Construiu o Centro Aquático para os Jogos Olímpicos de Londres, o Riverside Museum em Glasgow, o Investcorp Building em Oxford e a Evelyn Grace Academy, também em Londres.
Apesar da sua fama e da longa lista de edifícios impressionantes, houve repetidos contratempos até ao fim. Quando ganhou o concurso para o Estádio Olímpico de Tóquio, uma grande parte da elite arquitetónica japonesa opôs-se ao projeto. Após uma feroz troca de golpes entre Hadid e os seus colegas japoneses, o primeiro-ministro japonês acabou por intervir e cancelar o projeto.
Em retrospetiva, parece que Hadid esteve sempre rodeada de controvérsia, quer se tratasse do seu infame estaleiro de construção no Qatar ou das discussões apaixonadas entre arquitectos sobre o design paramétrico que ela e o seu sócio Patrik Schumacher defendiam. Não há dúvida de que teve de suportar mais do que os colegas homens que podiam ser acusados do mesmo.
Sempre se defendeu apaixonadamente destas críticas e, assim, não só deu um importante contributo para o discurso arquitetónico, como também mostrou a jovens arquitectas como se afirmarem num mundo de homens. Numa entrevista a Hans-Ulrich Obrist, em que lhe perguntaram se se sentia ligada à geração mais jovem de arquitectos, respondeu à melhor maneira Hadid: prefere os jovens, uma vez que os colegas homens, em particular, têm tendência para olhar para a sua idade.
Zaha Hadid não facilitou a vida a ninguém. É precisamente aí que reside a sua grandeza. Ultrapassou os limites, abriu novos caminhos e será um modelo para as futuras gerações de arquitectos. A sua vida e o seu trabalho mostram que a arquitetura também significa luta e que vale a pena lutar por ela. Sentiremos a sua falta.

